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Dr. Mário Perrone
O médico que virou empresário
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Rondonópolis

Entrei para a Unimed. Relutei, mas entrei. Já faz dez anos. Disseram-me que a cooperativa tinha, entre outras, a meta de me proteger da exploração do trabalho médico. Afirmaram que seria o futuro e único caminho da medicina. Acreditei e achei interessante. Fui levando. Um dia, comecei a perceber que o conceito de proteger economicamente o médico que a Unimed propunha era diferente de meu conceito. Eu pensava, ingênuo, que conseguiria manter um consultório funcionando e pudesse guardar uns trocados atendendo os usuários da cooperativa. Comecei a reclamar. Para quem? Obviamente para os diretores. Eu admirava muito os diretores.

Havia  diretores locais e diretores da Unimed do Brasil. Eu achava linda a vida do Dr. Edmundo Castilho que se dizia fundador do sistema UNIMED e pai da idéia. Um dia, fiquei fascinado quando vi uma reportagem sobre ele na revista Caras. O presidente a Unimed do Brasil e seus netos se divertem na mansão em Angra dos Reis era a manchete. Na foto, Edmundo, sorridente, irradiando saúde. Fiquei imaginando que ele deveria ter feito muitas, milhares mesmo, consultas para conseguir a fortuna que mostrava na revista, tão cultural.

Minhas reclamações diretas ao Edmundo não surtiram efeito. Eu era e ainda sou tão ignorante que achava que a Unimed daqui podia ser regulada pela sua genitora. Edmundo não respondeu a nenhuma de minhas cartas. Acho que ele é um homem muito educado, pois para aparecer  na já citada revista, não é para qualquer um. Tenho certeza de que ele não respondeu às minhas cartas por ser muito ocupado com as consultas e os pacientes internados pela Unimed. Afinal, ele tinha que dar o exemplo para todos nós.

Volto a contar de minhas reclamações. Então, achei melhor reclamar aos dirigentes daqui mesmo. Eles brigavam muito naquela época para ver quem seria da diretoria. E eu achava isto muito feio, mas entendia que todas estas brigas eram por motivos sublimes. Todos queriam dar sua contribuição ao cooperativismo. Hoje quase não brigam mais. Há alguns que estão na diretoria desde a fundação. Uns abnegados.

Estes nossos mentores eram também muito educados e ouviam minhas reclamações. Mas, eu ficava muito triste e preocupado, pois eles sempre diziam que a culpa do CH ser tão baixo era minha e dos outros cooperados. Nós não entendíamos nada de cooperativismo e pedíamos muitos exames e não íamos à cooperativa. Eles apenas administravam. Estes diretores eram muito inteligentes. Eu os admirava porque eles tinham feito curso disto e daquilo, viajavam sempre, participavam de congressos de cooperativismo; iam aqui, ali e acolá; tinham contatos com especialistas, liam literaturas especializadas. E faziam isto com muito sacrifício, pois são pessoas de muito boa índole, muito altruístas. Pensa que é fácil largar seu consultório e ir de avião e ficar hospedado em um bom hotel por uns dias para participar de maçantes cursos para o bem da cooperativa? Você não sabe como é difícil a vida de um dirigente Unimed. Uns iluminados!

Então eles me falaram, você tem que participar mais, dar sua opinião, ir a assembléias. Fui e achei as assembléias muito interessantes, pois todos ali entendiam que a cooperativa era nossa e a finalidade dela era proteger o médico. Mas sempre havia brigas, até xingamentos. Eu não sei falar em público, deve ser problema psiquiátrico, mas eu escrevia todas as minhas queixas que se resumiam em uma só, eu queria saber por que a cooperativa que sempre foi uma campeã de vendas não conseguia pagar dignamente o ato médico básico e nobre que é a consulta.  Sempre que eu perguntava eles repetiam que a culpa era minha e não deles e assim fiquei até com um certo complexo de culpa, mas acho que isto passa. Eu mostrava que era preciso fazer alguma coisa para preservar e dignificar nossos honorários e eles, os nossos mentores, diziam que não era possível pois havia crise. E davam festas, e faziam cursos e compravam computadores e patrocinavam outras coisas mais. E eu ficava muito triste, pois no meu consultório havia muito trabalho e no fim do dia quando eu tinha que pagar as contas o dinheiro não dava.

Ás vezes, acho que isto é como uma religião. Há os que acreditam e são muito fiéis, os que fingem que acreditam para tirar proveito e os que não conseguem acreditar. Eu me incluo neste último caso. Mas mesmo assim me esforço muito para aprender sobre cooperativismo, pois os iluminados que é como chamo os que acreditam e os pseudo-iluminados que é como eu chamo os que fingem acreditar, me disseram que eu não entendo nada e sou muito egoísta e só penso no meu consultório. Não deixa de ser verdade, porque no meu consultório é que ganho o pão nosso de cada dia e levei três décadas para construir a clientela que perdi, ou melhor, entreguei para a cooperativa, ou melhor ainda, os clientes preferiram pagar a cooperativa e a cooperativa me paga de acordo com o lucro. Não é bonito isto?

         Passei a ler livros sobre cooperativismo para tentar entender a causa do entusiasmo deles ( os iluminados e os pseudo-iluminados). Acho que o cooperativismo agrícola funciona muito bem na maioria das vezes, porque um saco de batatas é sempre um saco de batatas. A consulta médica pode ser diferente. Cada uma é cada uma. É muito difícil você dizer o que é consulta e o que é retorno.  Mas, para eles quase sempre é retorno, pois para a cooperativa, quanto menos consultas você fizer, melhor.  E, pelo menos isto que ensinam, se for bom  para a cooperativa é bom para mim.

Passei a frequentar também os Simpósios sobre cooperativismo. Aí é que eu conheci pessoas que se deram bem na vida. O lanche sempre era ótimo e as palestras muito proveitosas porque os convidados eram muito alegres e apresentavam argumentos inquestionáveis sobre a vantagem do cooperativismo para os médicos. Eles eram também muito insistentes e usavam conceitos verdadeiramente dogmáticos. Desculpe por esta palavra, mas tive que aprender algumas para poder conversar com estas interessantes pessoas. Eles me chamavam de prosaico e céptico. Eu os chamo de dogmáticos. Eles se vestem muito bem e projetam slides com frases de efeito. Fico meio chateado porque não consegui acreditar no que eles me ensinaram, porque eles não explicaram ainda minha insistente e cansativa pergunta que é por que o trabalho médico é tão desvalorizado e a cooperativa é uma campeã de vendas no Brasil, como a Coca-cola, como o MacDonalds. Eu fico também um pouco com inveja deles porque eles são como os abençoados e eu não tenho esta benção de conseguir ser feliz sendo dono de uma empresa que não me dá condições para pagar minhas contas, embora eu trabalhe muito.

Também fico muito feliz porque recebo muitas cartinhas da diretoria. Muito atenciosas. É  pena que quase nunca estas cartinhas trazem notícias. Todas fazem restrições. Não pode mais isto, não pode mais aquilo, agora precisa preencher um documento em três vias, agora precisa de autorização para isto, agora precisa de passar um fax para aquilo. Qualquer dia, virá uma dessas cartinhas proibindo qualquer tipo de atendimento médico, porque, onde já se viu, estes atendimentos podem prejudicar o bom andamento da cooperativa. Mas, sempre tem cartinhas convidando para churrascos, o que é uma pena, pois não posso comer carne por motivo de saúde. Todas as diretorias da Unimed  gostam muito de churrascos.

Sempre que o valor do CH fica baixo os diretores dão uma risadinha de lado meio marota. Viram só seus meninos malvados, vocês não fazem o que mandamos e agora, olha o castigo! Esta risadinha de lado parece que é um comportamento adquirido quando o cooperado passa a ser diretor. Eu não gosto muito dela, porque dá a impressão que eles ficam muito felizes quando o CH está baixo. Mas não é isto, deve ser apenas um cacoete. E aí eles culpam a gente de novo. Vocês não fazem cursos de cooperativismo, vocês pedem exames demais, vocês internam casos de crianças só porque precisam de oxigênio, vocês não participam, etc. Sempre com o sorrisinho de lado.

Eu escrevo estas coisas, mas sou muito obediente. Procuro atender  os usuários sem discriminá-los, solicito apenas os exames que acho necessários, interno só casos que precisam de atendimento hospitalar, acato ordens. Acho que minha função básica é dar o melhor de mim no consultório. Cada cliente bem atendido trará outros. O problema é que do jeito que as coisas andam em breve não poderei pagar mais minhas contas. Mesmo participando de festas, cursos e simpósios, preciso de um lucrinho para poder descansar um pouquinho.

Aí apareceu uma grande oportunidade em minha vida, fazer um curso de educação cooperativista. A expectativa que me criaram quando me convidaram para o dito curso foi a de que, aí sim, eu poderia ter a resposta à inquietante pergunta que não quer calar, como uma empresa que vende tanto paga tão mal a seus cooperados?. Agora sim, eu poderia me exibir e quem sabe ser igual aos iluminados e abençoados. Disseram que se eu não fizesse este curso a minha empresa iria para o beleléu. O curso foi um sucesso, a começar do local, um hotel cinco estrelas. Ninguém pode pensar mal deste fato, pois há um fundo especial na UNIMED para educação continuada em cooperativismo. Os professores também eram muito seguros e engraçados. Sempre diziam que se não houvesse a UNIMED, estaríamos perdidos e condenados a trabalhar para pessoas muito maldosas. Achei interessante esta capacidade de ver o futuro porque desde a infância me ensinaram que o futuro a Deus pertence. Aí é que aprendi muitas coisas que me impressionaram. Meu consultório não vale nada, me disseram. Agora você é um empresário. Isto me deixou  assustado, pois vejo os empresários pela televisão e estão sempre de terno e gravata e há muitos anos não visto uma roupa destas, nem sei se tenho. Também vejo de vez em quando nos noticiários um empresário sendo levado algemado porque exagerou na maneira de ganhar dinheiro. Fiquei muito preocupado. Mas, logo veio a hora do lanche que, como sempre, estava muito bom. Aproveitei muito o curso porque os professores eram muito entusiasmados e simpáticos. Aprendi que não devo fazer muitas consultas porque isto não é bom para a cooperativa. Aprendi que se eu sair da cooperativa vou com uma mão na frente e outra atrás e devo ficar muito feliz se não tiver que pagar nada para sair. Aprendi também que meu trabalho médico chama-se produto que é vendido pela cooperativa. Mas, acho que eles não foram muito didáticos, ou eu sou muito limitado, pois mesmo me dedicando bastante, sendo pontual, prestando a atenção não consegui resposta para aquela já quase eterna pergunta, por que esta empresa maravilhosa não consegue pagar bem os atos médicos de  seus donos?

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